A alma em poucas palavras

Uma biblioteca é um lugar em que você pode topar com vozes inesperadas. Um livro mal colocado na prateleira; uma revista que não procurada; todos de repente interessantes, de repente ali, sem que ninguém os chamasse.

Uma destas surpresas foi um poema de Takuboku Ishkawa, poeta que viveu na Era Meiji do Japão. Um de seus tankas saiu na revista Transição de setembro de 1939 (ano 1, nº 2). Esta revista pertencia à colônia japonesa em São Paulo. O referido exemplar está depositado na Caixa R0124 da hemeroteca do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Decidi transcrever abaixo a nota biográfica escrita por Kikuo Furuno, e o poema, ou tanka, traduzido por Kikuo Furuno para francês e português, e apresentado também em japonês fonético.

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Takuboku Ishikawa
nota biográfica por Kikuo Furuno

Desde a segunda metade do século 19 até os nossos dias, Takuboku Ishikawa é o poeta que possui maior número de leitores. E seus leitores pertencem a classes sociais as mais diversas e são de todas as idades.

Takuboku começou a fazer poesia e “tanka” no “Shinshisha” dirigido pelo casal Tekkan e Akiko Yoshano. A tendência desse grupo de literatos era o romantismo barato. Por ser muito jovem ainda, Takuboku também nada de aproveitável produziu por essa época. Entretanto a sua existência miseranda – conseqüência da extrema penúria, da moléstia (sofria do peito) e das contínuas desgraças dos seus parentes próximos – fez com que suas poesias assumissem, aos poucos, caráter pessimista, negativista e de desalento. Desse estado de espírito nasceram o “humor” e o sarcasmo, que tinham no seu reverso, lágrimas quentes de bondade humana.

Takuboku nasceu em 1886 e morreu em 1913. Sua vida foi assaz breve e o verdadeiro período de sua atividade literária não passou, segundo se acredita, de alguns anos apenas. No entanto, se, como acima afirmamos, suas poesias são repetidas por todos os japoneses, quer amem quer não a literatura, desde os tempos de Meiji até hoje, é porque o infeliz poeta cantou, com desassombrada sinceridade, a sua penosa vida real, mantendo, contudo, no fundo, uma corrente cristalina de um belo sentimento poético.

A poesia que vamos apresentar aqui não representa, em absoluto, as melhores, mas servirá para mostrar as tendências dos carmas de Takuboku.

Tornei-me
homem triste, que canta,
em voz alta,
sozinho,
olhando para o mar.

Brincando,
carreguei minha mãe nos hombros -
mas chorei ao sentir
seu peso leve demais,
sem mesmo poder dar três passos.

De longe,
ouve-se o som de uma flauta -
será porque
estou abatido,
que me vêm as lagrimas?

Sem motivo algum,
fiquei com desejo de ver o mar,
e vim para o mar -
no dia em que meu coração dolorido
me pesava demais.

Tout seul
Face à la mer,
La voix triste qui chante
Je suis devenu.

Par jeu, j’avais
Pris ma mère sur mes épaules:
Mais à sentir
Ce poids trop faible, j’ai pleuré
Sans pouvoir même aller trois pas.

Au loin,
Une flute qui sonne:
Etais-je donc
Tête baissée, qu’ainsi
Les larmes me viennent?

Sans raison,
Prenant envie de voir la mer,
Vers la mer je suis venu:
En ce jour ou mon coeur en peine
M’est impossible à porter.

Tada hitori
Umi ni mukaite
Takara ni
Utau sabishiki
Hito to nariniki.

Tawamure ni
Haha wo se-oite
Sono amari
Karoki ni nakite
Sam-po ayumazu.

Tôku yori
Fue no ne kikoyu
Unadarete
Aru yue yaramu
Namida nagaruru.

Yue mo naku
Umi ga mitakute
Umi ni kinu
Kokoro itamite
Tae-gataki hi ni.

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