As artes plásticas cubistas, dadaístas, fauvistas; os poemas de Mallarmé; a música de Debussy. Por que desgostaram tanta gente? Publicado aos pedaços num jornal de Madri em 1924, e em volume único no ano seguinte, o ensaio A desumanização da arte (Editora Cortez, 14 reais), de José Ortega y Gasset (1883-1955), afirma que a reação furiosa do público diante de uma obra de vanguarda deriva de uma profunda mudança da percepção estética. As vanguardas artísticas agrediam a sensibilidade moldada pela arte bem estabelecida do século 19. Seus alvos eram Victor Hugo, Courbet, Beethoven. As vanguardas queriam explorar um mundo artístico inusitado, interessante para poucos, odiado por muitos.
A arte do século 19, realista no romantismo e no naturalismo, se dirigia a um público que reagia ao objeto artístico indo além dele, extraindo prazer estético não do próprio objeto, mas da porção de realidade a qual ele alude. O bom burguês do século 19, aquele que consumia Dickens e Scott, que vibrava com as travessuras de Byron, não gostava de arte, mas do conteúdo humano que julgava perceber através da arte. Para este cidadão honesto, a arte era uma lente pela qual observar a vida.
Havia nas vanguardas artísticas um ódio encarniçado a este burguês médio do século 19. O artista de vanguarda concebia-se antes de tudo como um aristocrata: ele se julgava acima da média; produzia uma arte que não podia ser desfrutada pela média; atraía contra si os coices do cidadão médio. Ódio por ódio. Lama por lama. A pessoa média reagia contra uma arte que não podia desfrutar, contra uma arte que mostrava para ela que ela equivalia a um gado insensível, que chifra e muge, mas jamais sente.
Mallarmé, cujos poemas possuem tanto sentido quanto um cascalho perdido numa estrada de roça, jamais desejou sua arte como lente para observar coisa alguma. Seus poemas não aludem à vida. Seus poemas não aludem a nada, exceto a si próprios, como poemas. À arte que quer dizer algo bacana acerca da vida, como os romances de Charles Dickens, eternamente expiando a má consciência do burguês endinheirado, Mallarmé contrapõe uma arte desinteressada de problemas de travesseiro. Seus poemas abandonam a humanidade à própria sorte. O artista cuida de sua obra. E o mundo que se arranje. Apóstolo de uma arte inútil, nada se deve esperar do artista de vanguarda, exceto arte.
A arte realista do século 19 sempre atendia a grandes preocupações. O artista queria pelo menos salvar a humanidade. Com um romance, um poema, uma música. Às vezes um quadro. Quem sabe uma escultura. O artista de vanguarda, entretanto, procurava unicamente um objeto artístico que pudesse ser fruído como tal. Que não ajudasse ninguém. Que não salvasse ninguém. Aí está a última causa do ódio que o bom burguês direcionava contra a nova arte. Acostumado a uma arte que o conduzia na vida, que o livrava da insensatez do universo, ele se via repentinamente diante de uma arte que o abandonava à sua natureza de capataz. A nova arte mostrava ao bom burguês que ele não passava de um mocho obrigado a ter olhos de águia.